O Estandarte Vivo
I
O céu queimava em chamas quando Karrath compreendeu que morreria sozinho.
Os dragões desceram sobre a aldeia como uma canção antiga e sem fim. Atravessaram os céus como soberanos, de modo que as nuvens se abriram diante deles e até os trovões recuaram. Mesmo o vento abandonou as paliçadas quando a primeira criatura rompeu o firmamento e mergulhou sobre os telhados de madeira escura.
Naquele momento, Karrath estava ajoelhado nas cinzas, o corpo da mãe entre os braços. Sera não respirava mais havia algum tempo. A magia ainda fervia nas veias do filho, sem saber para onde ir. A carapaça rubra, que lhe cobria o tronco e os ombros, vibrava na mesma intensidade de um coração exposto.
Então, se ergueu. Os seis braços responderam fora de ordem: o primeiro encontrou o chão, e os outros três vagaram um instante no ar, à procura de alguma coisa não mais ali. A fumaça ardia nos olhos, e ainda assim era possível ver tudo. Via melhor do que gostaria, inclusive. Os filhos dos Gurka Kahn, seus companheiros de infância nos pátios já inexistentes, jaziam tortos sobre as cinzas. Os anciãos outrora questionadores do seu direito à vida não questionavam mais nada. E nos braços, o peso já frio da única pessoa que nunca lhe questionou nada.
O dragão maior, que pousou sobre o terreiro central, era do tamanho de uma colina deslocada. A criatura abriu as fauces uma última vez, antes de partir, e o que saiu dela não foi propriamente fogo, pois parecia diferente. Karrath assistiu sem entender.
E, em meio ao desabar das últimas vigas, sentiu pela primeira vez na vida a presença de um ser infinitamente abominável. Imóvel, à beira do ângulo de visão, onde os olhos não chegavam.
Karrath, com a boca cheia de cinzas, sorriu e balbuciou algo inaudível. O ser, profundamente ofendido em sua natureza mais antiga, recuou.
II
Sera não pediu desculpas a ninguém quando afagou no colo o filho de seis braços. Houve um silêncio prolongado nas tendas dos Gurka Kahn naquela noite, e nesse silêncio cabiam todos os debates que os mais velhos não tiveram coragem de iniciar enquanto ela escutava. A parteira lavou a criança com água fria e tremia ao fazê-lo devido à cena que via, pois uma estranha carapaça de quitina lhe cobria parte do peito.
Sera olhou para o filho e olhou para os anciãos, e disse-lhes apenas que ele ficaria. Os anciãos aceitaram a decisão sem responder. Os Gurka Kahn odiavam a Tormenta, porque perderam muito para ela, mas sabiam tolerar seus produtos quando esses serviam à tribo. Karrath, embora estranho até para os padrões dos lefou, era ainda assim uma criança humana de ventre humano, e Sera era uma das suas. Isso bastou para que ele vivesse.
O homem que o gerara partira fazia meses quando Karrath nasceu. Sera nunca falou dele com mágoa, nem nunca com saudade. Falava dele apenas quando perguntada, e mesmo assim, pouco: chegara à aldeia na última estação, ficara tempo suficiente para ser querido, e partira antes do crescimento do ventre. As pessoas mais cuidadosas da tribo lembravam-se de uma presença incomum naquele homem. Ninguém o vira derramar sombra demais ou de menos, mas alguns juravam, depois, que algo na maneira como ele caminhava, sugeria que sombras não eram exatamente uma exigência da natureza dele. Disso, ninguém falou alto enquanto o homem esteve entre os vivos. Quando se foi, falou-se ainda menos. O filho cresceu sob esse murmúrio.
Por consequência, também sob outros murmúrios. Algum deles, repetido pelas crianças: “Karrath é desastrado.” Afinal, crescer com seis braços é, antes de tudo, um aprendizado em geometria espacial. O mundo dos Gurka Kahn fora construído para corpos com dois braços, e o corpo dele insistia em ocupar mais espaço do que o previsto. Derrubava potes ao se virar, esbarrava em postes ao caminhar distraído, e mais de uma vez machucou a si mesmo com um membro reagindo antes da autorização da mente. Os outros braços pareciam ter vontade própria nos primeiros anos, e essa vontade era ingovernável. Sera teve paciência. Ensinou o filho a comer com os dois braços principais e a deixar os outros quietos junto ao corpo. Ensinou-o a dormir de costas, para que nenhum braço acordasse antes do dono. Ensinou-o, sobretudo, a não pedir desculpas pelo que era.
As crianças da aldeia oscilavam entre a curiosidade e a distância. Algumas o seguiam por um tempo, fascinadas pela diferença, e depois se afastavam quando os pais lhes diziam alguma coisa em voz baixa. Os adultos eram mais consistentes: tratavam-no sempre com aquela cortesia áspera. Aprendeu cedo a diferença entre ser tolerado e ser amado, e aprendeu também, pela mãe, e apenas por ela, que a intolerância dos outros deveria ser sustentada com dignidade, e que nenhum filho de Sera havia de baixar os olhos para os outros.
Foi nessa infância, feita de pequenas humilhações administradas com firmeza, que os Zallar começaram a aparecer no calendário da aldeia. As primeiras invasões chegaram quando Karrath tinha cinco ou seis anos, e na memória de criança o que ficou foi o som, a correria no escuro, os gritos dos guerreiros partindo para a defesa e o cheiro de fumaça vindo de outra direção, sem se saber se chegaria também à sua casa. Karrath aprendeu, antes de aprender qualquer outra coisa sobre o mundo lá fora, que o mundo lá fora tinha intenções, e essas intenções definitivamente não eram boas.
III
Aos treze anos, Karrath foi entregue ao treinamento. O guerreiro que o aceitou era um veterano cujo nome se perdeu com o tempo. Carregava cicatrizes suficientes para dispensar quaisquer perguntas sobre a própria experiência, e possuía também uma paciência capaz de caracterizá-lo. Aceitou o jovem porque seis braços treinados valiam mais do que três guerreiros somados, e os Gurka Kahn precisavam de cada um dos guerreiros treinados.
O treinamento começou com a conclusão honesta de que ele era um desastre. Os quatro membros adicionais funcionavam como bichos pequenos presos a um tronco maior, pois reagiam a estímulos que ninguém mais percebia, recolhiam-se quando deveriam avançar, e mais de uma vez impediram os movimentos decididos previamente. Em exercícios de combate, era comum vê-lo atrapalhar o próprio equilíbrio com um braço enquanto tentava recuperá-lo com outro. O veterano observava aquilo sem rir, mas também sem disfarçar a perplexidade, e ao fim de cada sessão repetia variações de uma mesma ordem: de novo e com paciência.
A primeira manifestação da herança rubra veio em um dia sem sol. Foi durante uma sessão particularmente ruim, em que ele derrubara três bonecos de prática e atingira o próprio ouvido com um dos antebraços. A vergonha nele crescia, e o sangue sempre presente ali à espera da hora decidiu: aquela seria a hora de crescer também. Um dos braços inferiores se desfez parcialmente. A carne converteu-se em um formato não pertencente ao corpo até segundos antes, projetando-se em uma pequena lâmina orgânica, quente e úmida. Doía. Não muito. Apenas doía de um modo novo, distinto das dores conhecidas.
O veterano olhou para a lâmina por um longo tempo. Depois disse apenas estar bom, e que, a partir de agora, Karrath aprenderia a fazer aquilo de novo, desta vez de propósito.
As semanas seguintes foram de repetição. A carapaça sobre o tronco aprendeu, sob o impacto dos exercícios, a se estender pelas mãos, e os nós dos dedos adquiriram uma densidade capaz de transformar qualquer soco em algo com potencial de fazer o adversário sentir o impacto por mais tempo. A Empunhadura Rubra foi a soma de golpes repetidos até o corpo entender o valor de reforçar os pontos de onde o contato era emitido. Karrath aprendeu, pela primeira vez, que o seu corpo aprendia. E aprendeu também a respeitar o veterano insistente.
Foi por essa época que o veterano lhe disse a frase carregada por Karrath pelos anos seguintes: tinha mais força do que o necessário e menos controle do que merecia, e seu trabalho era trabalhar até inverter essa ordem. Karrath assentiu sem responder. Sera, quando ouviu, observou a sensatez do veterano, e o lembrou de fazer o favor de levar as palavras dele a sério.
IV
Aos quinze anos, quis aprender magia. Alguns arcanistas passavam de tempos em tempos pela aldeia, e sempre falavam da magia como coisa nascida do carisma ou da inteligência, da personalidade e da presença a se impor ao mundo. O jovem, nunca uma presença imponente, supôs a necessidade de descobrir em si alguma forma daquilo. Tentou durante meses. Repetiu os gestos como ensinados, as invocações como transcritas, a respiração como descrita. Os resultados foram modestos quando não foram nulos. Houve algumas faíscas, alguns momentos em que algo quase acontecia. Mas magia não, magia não houve.
Começou a cogitar, naquele inverno, ser talvez um incompleto, alguém a quem a linhagem rubra correndo nas veias fora generosa com o corpo e mesquinha com a mente, e que teria de se contentar com os poderes já manifestos, sem necessidade de fórmulas. A constatação não o magoou tanto quanto poderia. Já se acostumara a ter a vida concedida em partes.
A descoberta veio durante um ataque Zallar de intensidade média, em que três guerreiros da aldeia haviam caído e ele se encontrava encurralado contra uma parede de terra com dois inimigos pela frente. Não havia tempo para gestos ou qualquer outra coisa. Apenas o corpo dele, treinado durante dois anos, e os corpos deles, em avanço. E foi nesse momento, sem decidir fazê-lo, que se manifestou. Manifestou-se com o corpo inteiro, de forma diferente da dos arcanistas, com a tensão da energia concentrada em si durante anos. A magia saiu: errada pelo padrão dos livros, devastadora pelo resultado. Uma onda de escuridão explodiu a partir dele e os dois Zallar não tiveram tempo de reagir antes de serem atravessados por um clarão rubro.
Levou meses para reproduzir aquilo de propósito. E levou ainda mais meses para entender a descoberta. A magia, no caso dele, não era condensada pelo carisma, e sim pela força. O que parecia ser uma adaptação era, na verdade, uma forma mais antiga de se acessar o poder, uma tradição existente antes da codificação das tradições atuais, e depois perdida.
A partir desse reconhecimento, sua magia deixou de ser um complemento e passou a ser uma extensão da habilidade combativa. Cada feitiço era, agora, mais uma das funções dos seis braços. Quando lutava, lutava com tudo: punhos, lâminas projetadas da própria carne, concentração mágica. O corpo inteiro se tornara uma arma.
V
Karrath tinha dezesseis ou dezessete anos quando Thariel chegou à aldeia sob uma chuva fina, que parecia ter vindo só para dar-lhe uma entrada digna. Os ogros, na experiência dos Gurka Kahn, eram criaturas de utilidade limitada e diálogo ainda pior. Apareciam de tempos em tempos nas trilhas dos Ermos, em geral perdidos ou com fome, e eram tratados com cautela. Thariel rompeu essa expectativa antes mesmo de abrir a boca. Trazia, ao ombro, uma criança Gurka Kahn ferida, encontrada nas trilhas a meia légua da aldeia, e a entregou aos pais com delicadeza. Só depois disso se apresentou.
Falou bem. Falou melhor do que metade dos guerreiros da aldeia. Tinha vocabulário, paciência para escutar e, sobretudo, uma qualidade rara de fazer perguntas não pensadas pelos outros. Mas o mais impressionante para os Gurka Kahn naquela primeira noite, mais do que a fala, ou o tamanho, ou a ferida no flanco — carregada por ele e ainda não tratada, pois recusara o cuidado antes da criança ser atendida —, foi sua resposta a alguém perguntando-lhe de onde vinha. Disse vir de muitos lugares. Disse servir a um deus cujo nome preferia não pronunciar em terras estranhas, mas cujo mandato era simples: se interpor entre o que machuca e o que pode ser machucado. Os Gurka Kahn tinham pouca paciência para teologias importadas, mas reconheciam um homem útil quando o viam. Assim, ofereceram-lhe um lugar e ele aceitou.
Era um paladino, embora a palavra, nas tendas dos Gurka Kahn, pouco significasse. A vocação era mais importante, e a vocação dele era visível desde os primeiros dias. Enquanto os outros guerreiros avançavam, Thariel se interpunha. Enquanto os outros recuavam, Thariel permanecia. Carregava um único equipamento de combate, um escudo de aço escuro do tamanho de uma porta de celeiro, suficiente para cobrir o próprio corpo de ogro e ainda parte de quem estivesse atrás dele. Não portava arma. Os guerreiros mais velhos, ao notarem a ausência, perguntaram-lhe na primeira semana se aquilo era uma escolha, esquecimento, uma restrição, aliás, mas o que diabos era aquilo. Thariel respondeu: “A primeira opção”. Disse que, se viesse a precisar atacar, alguma coisa havia dado errado no seu trabalho, e que o trabalho dele não era derrotar inimigos, mas garantir que os derrotados não fossem os seus. Os guerreiros aceitaram a resposta com algum estranhamento, mas também com respeito. Era uma forma incomum de pensar a guerra, e os Gurka Kahn tinham visto muitas formas de pensar a guerra.
O ogro lutava sem pressa e sem fúria. Lutava como se a função dele em qualquer combate fosse manter alguns vivos pelo tempo necessário até que os outros concluíssem o trabalho deles. E lutava, principalmente, como se atacar fosse uma distração da função real, uma tentação a ser resistida. Mais de uma vez, em combates posteriores, Karrath o viu deixar passar oportunidades claras de ferir o inimigo porque ferir o inimigo significaria abrir um ângulo no escudo, e abrir um ângulo no escudo significaria expor alguém atrás dele. Thariel não atacava porque atacar, para ele, era um luxo que outros podiam se dar enquanto ele cuidava do essencial.
Karrath o conheceu no terceiro dia, durante um treino. Thariel observava de longe, encostado a um poste, a ferida do flanco já tratada e quase fechada. O jovem executava uma sequência de ataques múltiplos contra três bonecos de palha, e errava dois de cada três golpes porque o quarto braço errava o tempo. Quando a sessão terminou, Thariel se aproximou. Não comentou os erros. Disse apenas que, se o outro quisesse experimentar atacar sem ter de pensar nas próprias costas, ele estaria disponível. Karrath olhou para o ogro durante um instante longo, com os seis braços ainda ofegantes da sessão. Não era uma proposta feita a qualquer um. Era a proposta específica de um defensor a um atacante, e ele, que durante toda a vida tivera de cuidar das próprias costas, porque ninguém mais cuidaria, sentiu pela primeira vez a possibilidade estranha de uma divisão de trabalho. Por fim, aceitou com um aceno breve.
A primeira vez que combateram juntos foi alguns dias depois, contra um bando pequeno dos Zallar. Tentavam uma incursão noturna pelo flanco leste. Thariel se posicionou à frente, com o escudo erguido pelas duas mãos, e simplesmente não saiu do lugar. Os Zallar avançaram contra ele em ondas. Nenhum dos atacantes morreu pela mão do ogro, mas vários morreram ao tentar contorná-lo, expondo o flanco a Karrath, que os atacou da retaguarda com liberdade. Foi um arranjo eficiente. Foi também, percebeu o jovem durante o combate, um arranjo capaz de produzir algo maior do que a soma das duas partes. Os seis braços, livres do dever de proteger o tronco, descobriram capacidades antes ocultas pela vigilância constante. Os Armamentos Aberrantes fluíram. As magias se encadearam mais rápido. Atacou naquela noite o de sempre, mas com o dobro da eficiência.
Quando o combate terminou, Thariel não falou sobre o desempenho. Olhou para Karrath com uma expressão calma e disse apenas estar bom, e que da próxima vez o jovem poderia tentar avançar mais um passo, porque o escudo cobria mais terreno do que ele aproveitara. O kaijin, ainda ofegante, recebeu naquele comentário a primeira instrução tática útil da vida adulta.
A amizade — se aquela palavra cabia, e talvez não coubesse, mas nenhuma outra cabia melhor — formou-se a partir desse arranjo de combate. Thariel ficou na aldeia porque, segundo ele mesmo, o deus a quem servia o conduzira até ali e ali parecia haver trabalho útil a ser feito. Lutou contra os Zallar ao lado de Karrath nos anos seguintes com consistência. Ao fim das batalhas, costumavam sentar-se em silêncio prolongado, de onde só saíam as observações estritamente necessárias. O kaijin, sempre observado por todos de algum modo, descobriu em Thariel a primeira pessoa, fora de Sera, a olhar para ele sem precisar concluir nada. Os seis braços, para o paladino, eram seis braços. A carapaça era apenas uma carapaça. Os olhos brancos eram olhos brancos. No fim, eram apenas as ferramentas de que aquele atacante específico dispunha, e o trabalho dele, de defensor, era garantir o uso dessas ferramentas pelo maior tempo possível.
Foi Thariel quem o ajudou, com observações esparsas e bem colocadas, a refinar o uso simultâneo dos seis membros. Não eram lições formais, apenas perguntas, sempre feitas durante ou logo após os combates. O que aconteceria, sugeriu certa vez no meio de uma luta, se ele atacasse com três braços em vez de dois enquanto o ogro cobria a retaguarda. O que aconteceria se os três golpes fossem em alturas diferentes. O que aconteceria se, enquanto isso, os outros três se preparassem para o golpe seguinte. Experimentou. Falhou. Tentou de novo. E descobriu, ao longo de muitas tentativas, que a chave não era coordenar os braços como um par de mãos, mas pensar em paralelo, manter três intenções ativas sem que nenhuma corrompesse as outras. A Quadridestria foi uma habilidade construída combate a combate, com Thariel sempre nos três passos atrás de onde o golpe inimigo poderia chegar. Quando finalmente o kaijin se moveu com os seis membros em harmonia plena, Thariel comentou apenas que ele parecia menos perigoso para si mesmo agora, e isso parecia um progresso considerável.
Houve, em algum momento daqueles anos, uma noite em que Thariel falou mais do habitual. Estavam os dois sentados após um combate particularmente longo, e o ogro, que nunca pedia nada a ninguém, comentou, sem olhar para Karrath, que o deus a quem servia falava sobre dois tipos de coragem: a de avançar, e a de permanecer. Disse ter se perguntado durante a vida toda qual das duas era a mais difícil, e que só chegara a uma conclusão depois de conhecer Karrath. A coragem de avançar exigia talento, mas a coragem de permanecer exigia algo mais raro: a aceitação de que, enquanto se permanece, são os outros a decidir se o trabalho do permanente vale alguma coisa. O kaijin não soube o que responder. Thariel, percebendo o silêncio, mudou de assunto. Karrath haveria de lembrar dessa conversa, anos depois, quando a noite errasse de cor.
VI
Os anos seguintes foram anos de guerra. Da guerra como ela é de fato. Uma erosão paciente, feita de invasões esporádicas tornando-se regulares e regulares tornando-se constantes, e em que cada inverno se contava pelos ausentes produzidos. Os Zallar atacavam de muitas formas. Em alguns anos vinham em números, como uma maré chocando-se nas paliçadas e recolhendo-se para vir de novo. Em outros, vinham em pequenos grupos com táticas indicativas de uma inteligência que os Gurka Kahn prefeririam não ter de respeitar. Houve invernos sem ataques, e nesses invernos a aldeia descobria que o silêncio dos Zallar era pior do que a própria presença deles, porque o silêncio obrigava a esperar, e esperar consumia mais energia do que combater.
Karrath combateu. Combateu durante quinze anos, sem saber mais se por vocação ou hábito. Os seis braços outrora desajeitados tornaram-se eficientes a um ponto não acompanhado nem por ele mesmo. As magias antes exigentes de concentração entraram no automático do corpo, e o corpo, por sua vez, aprendeu a economizar onde antes desperdiçava. Foi com essa economia, conquistada pela exaustão, que a herança aprimorada se manifestou: o sangue rubro encontrou, no cansaço acumulado, uma forma de gastar menos para entregar mais. Apesar de não perceber o instante exato dessa mudança, percebeu, em uma manhã qualquer, que feitiços antes capazes de o deixar ofegante já não o deixavam, e que, portanto, fazia algum tempo que aquilo havia mudado.
Thariel combateu também. Combateu ao lado do amigo em quase todos os confrontos importantes desses anos, e a dupla formada pelos dois tornou-se, com o tempo, uma das razões pelas quais os Zallar passaram a evitar atacar a aldeia pelos flancos onde se sabia estarem aqueles dois. A reputação correu entre as tribos com aquela mescla de medo e exagero: o ogro de escudo escuro nunca atacava ninguém e ainda assim derrotava bandos inteiros, e o kaijin de seis braços avançava sem nunca olhar para trás porque sabia estar o ogro lá. Os Zallar mais supersticiosos chegaram a acreditar, em certo período, que o ogro era uma estátua animada e o kaijin uma sombra dela. Thariel, quando a questão veio à tona certa noite numa fogueira, comentou apenas que reputações eram úteis na medida em que poupavam combates, e que portanto ele aceitava a sua sem maiores investigações.
Eventualmente, aventureiros também passaram pela aldeia ao longo desses anos. Alguns ficavam por uma estação. Outros ficavam mais. Os Gurka Kahn aceitavam todos os capazes de contribuir, e tinham um critério bastante prático para definir o tipo de contribuição válida. Foi nesse fluxo de aventureiros que o nome da Guilda Tempest começou a chegar. Vinha em fragmentos, contado por bocas diversas em ocasiões diversas, mas sempre com o mesmo núcleo: havia em Nova Malpetrim uma guilda de aventureiros que enfrentava o inafrontável, e enfrentava bem. Os relatos eram os habituais, embora exagerados pela admiração ou distorcidos pelo trajeto, mas suficientemente coerentes entre fontes independentes para se acreditar no essencial. Karrath ouvia. Registrava. Combatia. Thariel, por sua vez, mostrava interesse particular pelos relatos da Guilda. Comentou certa vez “Aquela guilda parece entender a divisão correta do trabalho”, e considerou aquilo uma virtude rara em qualquer lugar.
Aos vinte e oito anos, a ameaça Zallar foi finalmente afastada da região. Não houve uma batalha decisiva. Foi uma campanha final estendida por meses, construída sobre a exaustão de ambos os lados, e encerrada quando os Zallar, por razões nunca completamente claras, deixaram de vir. Os Gurka Kahn entenderam ter vencido. A vitória trouxe consigo o inventário silencioso da contagem dos rostos já não presentes ali para ouvir do feito. Karrath passou a primeira noite de paz verdadeira sentado ao lado de Thariel, e os dois não disseram quase nada, porque nenhum dos dois acreditava na possibilidade de palavras alcançarem com precisão o que era estar vivo depois daquilo. Sera, a alguns metros, dormiu pela primeira vez em anos sem uma orelha desperta.
Por algumas semanas, a aldeia teve algo próximo da normalidade.
VII
Os dragões chegaram numa manhã de céu limpo, e o céu limpo foi a última coisa que se pôde dizer sobre o céu daquele dia. Não houve aviso. Os Zallar, em sua maneira tosca, ao menos chegavam pelo chão e davam tempo aos sentinelas. Os dragões vieram por cima. Vieram por onde não havia sentinela, porque ninguém, em quinze anos de combate, havia previsto que alguma coisa pudesse vir por cima.
O primeiro rugido veio através de uma pressão repentina nos tímpanos. Os homens em pé caíram. Os homens sentados ficaram surdos por alguns segundos, e nesses segundos foi quando o fogo começou. As paliçadas queimaram primeiro, porque eram de madeira e estavam expostas. Depois, os telhados. Depois, as casas com telhado, e as pessoas dentro delas. O ar carregou-se de uma fumaça densa e ocre, do tipo capaz de cegar mais por dentro do que por fora, demorando-se nas casas fechadas como se houvesse decidido morar ali. Os dragões eram três, talvez quatro — Karrath nunca conseguiu, depois, ter certeza do número, porque a memória sobre esses acontecimentos permanecia turva.
Karrath lutou. Lutou com tudo o que tinha. Os Armamentos Aberrantes saíram dos braços inferiores; as magias o fortaleciam em sequência, aceleradas e ferozes. E lutou também, durante os primeiros minutos do ataque, na configuração de sempre, com Thariel dois passos atrás, escudo erguido, cobrindo a retaguarda com a mesma consistência dos quinze anos contra os Zallar. Um dos braços atingiu um dragão no flanco, e o kaijin viu o sangue da fera escorrer mais escuro do esperado, e por um instante achou que talvez houvesse alguma chance. Mas o instante durou pouco. O dragão atingido virou a cabeça, encarou-o com olhos não impressionados, e seguiu adiante.
Os aventureiros ainda de pé na aldeia, após a campanha contra os Zallar, combateram ao lado dele. Alguns eram bons. Alguns eram excelentes. Nenhum foi o suficiente. Na escala daquele ataque, apenas se sobrevive se houver sorte. Assim, os corpos começaram a cair com o passar do tempo. O kaijin ouvia os nomes sendo gritados em torno e perdia a conta antes de processar quem era cada um.
Thariel caiu pelo mesmo motivo dos outros. No entanto, caiu cumprindo a função cumprida pela vida toda. Um dos dragões investiu sobre as costas de Karrath num instante em que o kaijin estava preso na execução de um feitiço comprimido pelo Tempo Místico, com os seis braços ocupados em estabilizar a magia e os olhos fechados pela concentração. Thariel viu o avanço. Tinha duas opções, e as duas eram ruins. Podia gritar para que o outro interrompesse o feitiço, e nesse caso Karrath sobreviveria mas o feitiço seria perdido junto com a meia dúzia de aldeões em proteção. Ou podia atravessar a distância sozinho, posicionar o escudo, e absorver o golpe que cabia ao escudo absorver. Thariel escolheu a segunda opção sem hesitar, porque a hesitação não fazia parte do treino dele, e não havia tempo agora para começar a treiná-la.
O escudo de aço escuro recebeu o impacto e dobrou-se em formas que aço escuro não devia poder assumir. Thariel resistiu por dois segundos a mais do que qualquer outro ser teria resistido. O dragão jovem, irritado pela demora, descarregou então a outra pata, e foi essa segunda pata que terminou o serviço. Karrath ouviu o impacto. Não virou para trás imediatamente, porque o feitiço comprimido ainda estava na metade da execução e interrompê-lo agora desperdiçaria todo o tempo comprado por Thariel. Concluiu o feitiço. Salvou os aldeões, que viveriam mais alguns minutos, no máximo, antes de outros dragões os encontrarem. Só então virou-se.
Thariel estava caído de costas, o escudo destroçado a alguns metros, uma das mãos ainda fechada no ar, como se segurasse uma alça já inexistente. Os olhos dele encontraram os de Karrath, e o ogro, com a economia de sempre, conseguiu ainda articular meia frase. Disse algo sobre a coragem de permanecer, ou começou a dizer, e a frase permaneceu incompleta porque o sangue chegou primeiro à boca. Morreu segundos depois, sem terminar a observação. O kaijin não saberia nunca como ela terminaria, e essa ignorância haveria de acompanhá-lo pelos anos seguintes como uma das poucas coisas que o luto não conseguia nem aceitar nem reescrever.
E foi naquele instante, com Thariel morto a alguns passos atrás dele, que Karrath descobriu o significado de lutar sem retaguarda. Os seis braços, atacando livremente durante quinze anos porque sabiam estar o ogro cobrindo o resto, tiveram de assumir simultaneamente duas funções para as quais nenhuma havia sido especialmente projetada: atacar, e ao mesmo tempo defender. O dobro de trabalho. A metade da eficiência. Sentiu, num único instante, o quanto se acostumara àquela divisão de trabalho, e o quanto ela o havia tornado bom no que fazia.
Sera, entretanto, foi atingida em algum momento que Karrath não viu. Ele estava em outra parte da aldeia quando ouviu o desabamento da casa onde nascera, e correu em direção ao som com os seis braços já em transformação, mas a casa já não parecia uma casa quando chegou, apenas um amontoado de vigas em chamas e de pedras tombadas. Debaixo daquele amontoado, presa por vigas cruzadas que haviam formado uma pequena cavidade ao tombar, e cercada pela fumaça densa, instalada em todos os ambientes fechados da aldeia, havia ainda a voz da mãe, breve, pronunciando alguma coisa que poderia ter sido o nome do filho e que poderia ter sido outra coisa qualquer. Escavou. Escavou com os seis braços ao mesmo tempo, e a Quadridestria, pensada para o combate, serviu naquele instante para outra finalidade. Quando a alcançou, ela mal respirava, e a respiração produzida era rasa e irregular. Respirou por mais alguns segundos sob os olhos dele, e não parecia reconhecê-lo. Depois não respirou mais.
O guerreiro ficou ajoelhado ali por bastante tempo, com Sera entre os braços, recusando-se a soltá-la enquanto o mundo desabava ao redor. Os dragões partiam quando ele se ergueu, carregando o corpo da mãe consigo. A aldeia, reduzida a cinzas. Na verdade, já fazia algum tempo que a aldeia se parecia daquela forma, ele só demorou a notar. E, porque se levantou para olhar ao redor, percebeu não haver mais ninguém para olhar de volta.
Nesse momento os olhos dele mudaram. Houve uma alteração percebida mais pelo comentário dos outros, mais tarde, do que pela própria percepção. A visão no escuro chegou junto com o luto, na ironia de a herança rubra ter concedido exatamente a capacidade de que ele menos precisava no momento: ver com clareza tudo o que não havia para ser visto.
VIII
Karrath caminhou pelos Ermos durante meses sem direção exata. Não fugia, porque não havia de quem fugir. Não buscava, porque não havia o que buscar. Caminhava porque o corpo decidira continuar. Os Ermos Púrpuras eram, como sempre haviam sido, terra de ninguém: havia bestas, trogloditas, bandos esparsos de Zallar remanescentes. Enfrentou tudo pelo caminho, e enfrentou com uma eficiência capaz de assustar até a si mesmo. O corpo lutava enquanto a mente não estava presente. Os reflexos respondiam, magias surgiam, golpes os envolviam e inimigos caíam. O kaijin, em algum lugar atrás dos próprios olhos vermelhos, assistia àquilo como se fosse outra pessoa.
Aprendeu, durante esses meses, a lutar sem retaguarda. Foi um aprendizado caro. Os primeiros confrontos depois da queda da aldeia quase o mataram em mais de uma ocasião, porque os reflexos de quinze anos insistiam em pressupor um defensor já inexistente. Levou golpes nas costas, talvez até evitáveis. Foi cercado em situações antes impossíveis. E, lentamente, com o aprendizado imposto pela dor, reorganizou os seis braços para uma nova função. Dois deles passaram a manter, em quase todos os combates, vigília defensiva sobre o tronco e a nuca. Os outros quatro continuaram atacando.
Foi nesse desligamento gradual entre o corpo e a mente, e nessa redivisão do trabalho dos seis membros, que algo novo começou a se manifestar. Descobriu que os ataques já não o atingiam com a mesma frequência. As lâminas pareciam atrasar-se ao alcançá-lo. O terreno difícil já não o atrapalhava, passava por ele com indiferença. O kaijin havia começado a desprezar a realidade, sem ter feito disso uma escolha. A realidade, em troca, começava a desprezá-lo de volta.
IX
Os meses seguintes foram marcados por ruminação excessiva. O kaijin, treinado na infância para usar os seis braços e na juventude para usar a magia, descobriu naquele ponto da vida a única faculdade ainda intacta: a memória. E a memória, quando não tem mais nada para fazer, faz a única coisa que sabe: repete. Assim, revisitava o ataque dos dragões noite após noite, em variações que a mente lhe oferecia sem solicitação prévia. E se tivesse chegado mais cedo. E se tivesse permanecido junto de Sera em vez de defender a paliçada leste. E se tivesse atacado o segundo dragão antes do primeiro. E se Thariel tivesse recuado em vez de avançar. E se, e se, e se.
As perguntas não tinham resposta, porque perguntas desse tipo não têm resposta. Mas a mente dele, treinada por anos de combate a procurar soluções para problemas aparentemente insolúveis, recusou-se a aceitar a insolubilidade daquele problema específico. Continuou procurando. Continuou inspecionando o passado em busca de uma fissura por onde caber. E, num momento qualquer, durante um combate qualquer contra alguma criatura qualquer dos Ermos, descobriu que a mesma faculdade obsessiva, tentando comprimir o passado, conseguia, sim, comprimir alguma coisa — não o passado, mas o presente. Um feitiço de um segundo levou meio. O corpo pagou pelo desconto em vitalidade, e ele, àquela altura já sem contabilidade cuidadosa da própria vitalidade, considerou o pagamento aceitável.
O Tempo Místico, descrito pelos seres aberrantes como uma das habilidades mais intrigantes do repertório, manifestou-se em Karrath através da recusa. Foi a única forma encontrada pela mente de praticar o anseio desejado de fato, mas jamais permitido: voltar atrás. Como não podia voltar atrás, comprimia o presente. Era uma compensação pobre. Era, ainda assim, uma compensação.
X
O Dracogedon começou enquanto Karrath ainda estava nos Ermos. Percebeu o início pelos sobreviventes cruzando a região em fuga, e pelas histórias trazidas por eles. Cidades caíam em horas. Reinos até então permanentes deixavam de aparecer nos relatos porque já não havia bocas suficientes para mencioná-los. O céu, em diferentes pontos do continente, começou a mudar de cor de maneiras inexplicáveis. Os dragões eram muitos, e coordenados, e comandados por algo maior. Os relatos falavam de monarcas. Falavam de sete monarcas. Depois falavam de um monarca acima dos outros, e por fim falavam apenas desse, porque os outros já não eram relevantes.
Karrath sobreviveu nos Ermos por uma combinação de razões mais ligadas à geografia do que ao mérito. Os Ermos, sendo terra de ninguém, não eram alvo prioritário dos dragões. Havia objetivos mais simbólicos a serem atingidos antes. Os Ermos seriam alcançados depois, ao se chegar à etapa de varrer o desinteressante. Sabia que essa etapa chegaria, e portanto não se permitiu sentir a vantagem como vantagem. Sentiu-a apenas como um prazo.
Durante esses pouco menos de cinco anos, ao todo — embora a contagem se tornasse cada vez mais difícil —, o corpo dele continuou se adaptando. Desenvolveu o Visco Rubro, uma corrosividade ambiente que escorria da pele em situações de combate e que tornava qualquer contato físico com ele uma forma de envenenamento involuntário. Adquiriu a Herança Superior, com o sangue rubro fornecendo grandes reservas de poder. Atingiu a Magia Ilimitada, em que a força do corpo passava a processar feitiços além dos limites convencionais. E aprendeu a manter um Fluxo de Mana estável, capaz de sustentar dois efeitos mágicos simultâneos sem custo adicional. Cada uma dessas conquistas chegou por meio de adaptações biológicas de um organismo que se recusava a aceitar a derrota como uma condição final.
Foi nesse mesmo período que os relatos da Guilda Tempest, antes transmitidos como uma lenda, começaram a o alcançar com mais solidez. Os sobreviventes chegavam aos Ermos e contavam histórias específicas: uma cidade do norte resistira por três semanas porque a Guilda Tempest estava lá; uma fortaleza do leste caíra no instante exato da retirada da Guilda; um vilarejo qualquer onde uma única integrante segurara uma manada inteira de dragões juvenis durante o tempo necessário para as crianças escaparem. Os relatos eram inconsistentes nos detalhes e consistentes no essencial: havia, em Nova Malpetrim, aventureiros realizando, dia após dia, o irrealizável para qualquer outro. O kaijin ouvia, mas sem muita esperança. Talvez em outra vida, esses relatos lhe teriam despertado algo. No entanto, se ainda havia quem resistisse daquela forma, havia razão para o próximo passo, e o próximo, e o seguinte. Era pouco mas suficiente para quem não possuía mais nada.
Karrath nunca os encontrou pessoalmente. Tentou, por algum tempo, seguir o rastro dos relatos em direção a Nova Malpetrim, mas as distâncias eram grandes e os dragões estavam em toda parte, e ele, cuja função pessoal nunca fora definida com clareza, acabou desviando para enfrentamentos menores pelo caminho. Quando o relato definitivo chegou, entendeu que a Guilda Tempest havia caído. Veja, não por incompetência. O problema foi que o Dracogedon não era um inimigo vencível; era uma condição do mundo que apenas o tempo poderia desfazer, e o tempo escolhera não desfazê-lo. A constatação final foi: “Se a Guilda Tempest caíra, então o mundo caíra.”
XI
Houve uma manhã em que Karrath, ao acordar, percebeu não ter mais medo de dragões. Não foi uma percepção dramática. Foi mais como notar o sumiço da dor de uma ferida antiga em algum momento pela noite. Ficou sentado por um tempo testando a constatação por dentro. Pensou em dragões, no rugido, no fogo. Não houve aceleração no peito. Não houve a tensão na nuca surgida instintivamente durante anos. Havia apenas cansaço e uma irritação desgastada, igual à sentida diante de um inseto recusando-se a sair da sala.
Aquilo deveria ter sido um alívio. Suspeitou, no entanto, não ser bem assim. Suspeitou de algo ocupando o lugar desse medo, e desse algo não ser melhor do que o medo anterior. Demorou a entender do que se tratava. Levou semanas, talvez meses. E quando entendeu, foi por acaso, ao se ver refletido na superfície de uma poça depois de um combate. O reflexo o assustou de uma maneira nova, distinta da provocada pelos dragões. Tornara-se uma coisa capaz de provocar recuo. Tornara-se exatamente o tipo de criatura cuja simples presença bastava para fazer os outros desejarem estar em qualquer outro lugar.
Uma Presença Aterradora verdadeiramente aterradora. A soma do perdido, do visto e do feito, para continuar de pé. Era, enfim, a forma final escolhida pelo luto para se manifestar. Os dragões mais jovens, ao cruzá-lo nos Ermos, hesitavam. Os sobreviventes humanos, ao avistá-lo de longe, mudavam de rumo sem comentar. Então, Karrath aprendeu a aceitar isso.
E foi nesse período, com o medo dos dragões já ausente e a Presença Aterradora já instalada, que o kaijin começou a perceber o retorno daquela presença antiga, aquela da noite do desastre. Não parecia munida de hostilidade. Parecia mais a de um observador decidido a acompanhar o desfecho da coisa. Ele, tendo mandado a presença embora naquela primeira noite, percebeu o retorno dela, e percebeu também ter mudado o suficiente para não a mandar embora de novo. Não a aceitou. Apenas deixou de afastá-la.
XII
Arton estava quase tomada quando o dragão chegou aos Ermos. Karrath o observou descer de um morro distante, e os seis braços ficaram em prontidão antes que a mente desse a ordem. O dragão era grande mesmo para os padrões dos dragões. Possuía uma coloração oscilante entre o cinza-azulado e o escuro, e os olhos não brilhavam. O kaijin, treinado nos últimos anos a estimar o porte e a antiguidade dos dragões pela maneira como deslocavam o ar ao redor, soube de imediato que aquele não era qualquer um. Era um dos servos diretos. Era, possivelmente, dos servos do monarca acima dos outros monarcas, aquele chamado pelos relatos, quando ainda havia relatos, de Monarca das Almas.
A batalha começou de repente. O dragão não falou. Aliás, dragões raramente falavam, e os habituados à fala reservavam-na para coisas piores do que combates. Karrath atacou primeiro, com tudo. Os Armamentos Aberrantes saíram dos quatro braços inferiores em formas variadas, cada uma adaptada a uma faixa de alcance diferente. As magias saíram em sequência comprimida pelo Tempo Místico, em ritmo diferente do de qualquer arcanista convencional. O Visco Rubro escorreu da pele em quantidade desconhecida até por ele mesmo. A Presença Aterradora, nunca ativada de modo consciente pelo kaijin, instalou-se ao redor como uma camada extra, e o dragão, por uma fração de segundo, hesitou.
A hesitação, no entanto, não durou o bastante. O dragão avançou, e Karrath descobriu não ter força suficiente. Os ataques atingiam, mas eram absorvidos. O dragão sangrava em alguns pontos, mas sangrava pouco. Por conseguinte, compreendeu, em algum momento da terceira troca de golpes, que perderia. Não foi um pensamento triste. Foi um pensamento técnico. A tarefa simplesmente não poderia ser concluída.
Lutou, ainda assim, até o fim. Lutou porque parar era a única coisa ainda não tentada, e porque havia algo da teimosia herdada da mãe recusando-se a deixá-lo parar. Então, atingiu o dragão mais uma vez no flanco, e abriu uma ferida que sangrou de um jeito ligeiramente mais sério, e foi nesse instante exato que o dragão decidiu pôr fim à luta. A pata dianteira desceu. Karrath, com algum desprezo pela realidade e os seis braços ainda em movimento, conseguiu desviar parcialmente. Não foi suficiente. A pata o pegou de raspão pelo lado direito, projetou-o contra uma rocha que cedeu menos do que ele cedeu, e ele tombou no chão dos Ermos com pelo menos três dos seis braços imóveis e o sangue saindo de lugares onde ele nem sabia ter.
O dragão se aproximou sem pressa. Os passos dele faziam o chão tremer ao redor de Karrath, e o kaijin, deitado, pensou em duas coisas ao mesmo tempo.
A primeira foi não ter mais medo de dragões. A constatação, agora confirmada na presença final do exemplar mais perigoso já encontrado. Onde antes havia terror, agora restava apenas o reconhecimento neutro de uma força maior, do mesmo tipo de uma tempestade imparável ou de um desabamento.
A segunda, no entanto, foi avassaladora. Sentiu, com uma intensidade não experimentada desde a noite em que Sera morrera, o medo de perder a presença dos últimos meses. Aquela presença nunca nomeada, nunca aceita formalmente, mas que o acompanhara durante todo o Dracogedon. A ideia de morrer e perder o único vínculo sobrevivente a tudo o mais, aquilo, sim, era medo. Medo verdadeiro. Medo do tipo cuja própria sensação ele esquecera.
E o Deus do Medo, àquela altura já tendo compreendido o âmago daquele kaijin estranho, sentiu o medo dele e o reconheceu pelo que era: devoção. Devoção genuína, do tipo apenas forjável em silêncio durante anos de horror num ambiente apocalíptico.
Houve, então, no espaço de tempo contraído até a fração antes do último golpe, uma negociação entre divindades. O Deus do Medo procurou Aharadak, o Devorador, criador da Tormenta e responsável remoto pela existência do próprio Karrath. O Devorador escutou. Pensou. Aharadak, tendo tentado infectar Arton e falhado, considerou que a vitória de Kallyadranoch sobre o mundo seria, para os seus interesses pessoais, uma derrota desnecessária. Considerou também que conceder ao kaijin uma segunda chance abria possibilidades antes inexistentes. Os termos foram aceitos.
Os dois deuses concederam, cada qual da sua reserva, uma fagulha do poder divino, com a intenção de afetar aquele tempo apenas tocado por Karrath em escala mínima durante toda a vida, e agora entregue ao kaijin, por um instante, em escala divina. Não o suficiente para refazer o mundo. Suficiente, porém, para refazê-lo.
O mundo mudou. Karrath desapareceu. O dragão do Monarca das Almas, prestes a desferir o golpe final, encontrou de repente o ar onde antes havia uma presa, e ficou imóvel por um instante longo, tentando entender o ocorrido. Não entendeu. Por fim, continuou seu caminho em direção a outras presas ainda existentes, sem saber que aquela em particular acabara de ser retirada do tabuleiro.
XIII
Karrath abriu os olhos sobre a aldeia em chamas.
As chamas eram as mesmas. O céu era o mesmo. Os corpos no chão eram os mesmos, e estavam nos mesmos lugares, com as mesmas posições. Reconheceu, em segundos, estar no momento exato da primeira aparição da presença antiga. A diferença era que agora sabia. Sabia tudo. Sabia que Thariel caíra algum tempo antes, que Sera estava morta entre seus braços, que os dragões estavam partindo e a aldeia já não possuía sobreviventes além dele. Sabia que, dali a alguns anos, o mundo cairia, e que ele cairia com o mundo, e que falharia em todas as direções em que era possível falhar.
Sabia também que estava de volta.
A racionalização, a mente lhe forneceu prontamente, como a mente sempre faz nessas situações: o Tempo Místico, explicou a si mesmo, devia ter atingido naquele instante uma potência inédita, devia ter encontrado no desespero a fissura jamais alcançada por tantos anos de obsessão, e devia tê-lo lançado de volta àquele momento. A explicação era incompleta. Sabia disso. Mas não tinha, naquele instante, pressa de completá-la.
Assim, ergueu-se sobre os seis braços. Olhou ao redor, devagar, para confirmar não ter sido enganado pela própria mente. A aldeia continuava cinza. Sera continuava morta. Aquilo, compreendeu com uma clareza que nenhum poder divino se preocupara em suavizar, não fora devolvido. O retorno não era um perdão. Era apenas um reposicionamento. As pessoas perdidas continuavam perdidas, e continuariam, e essa parte do passado ficaria onde estava.
E foi nesse momento que a presença antiga se manifestou ao lado dele, à beira do ângulo de visão, como sempre. Mas algo era diferente desta vez. A presença o reconheceu antes mesmo de qualquer palavra. Reconheceu-o pela marca trazida de volta na pele, marca a qual nem ele mesmo era capaz de identificar, mas para o deus, inconfundível: o vestígio de anos de devoção silenciosa cultivada num futuro agora inexistente, o resíduo de um vínculo de uma vida inteira para um dos dois e apenas inicial para o outro, e ainda assim, o mesmo vínculo.
O Deus do Medo demorou-se um instante na contemplação daquilo. Era uma sensação nova, mesmo para um deus. Conhecer alguém antes de conhecê-lo. Reconhecer um devoto que ainda não havia se tornado devoto, mas que, de algum modo, já era. O deus aceitou a estranheza com curiosidade.
E disse, então, com uma voz que não era voz:
— Criança. Mostre aos dragões o que é o verdadeiro medo.
Karrath escutou. Escutou com os olhos vermelhos, com os seis braços manchados das cinzas da casa onde nascera. Escutou, e dentro dele alguma coisa se acomodou em silêncio. Não foi alívio, porque alívio exige a interrupção de um sofrimento e o dele não foi interrompido. Parecia similar a uma orientação, ou confirmação, finalmente externa, de ainda existir uma direção possível. Durante todo o Dracogedon ele se orientara pelos relatos da Guilda Tempest, porque eram a única coisa que apontava para algum lugar. Agora, recebia uma orientação mais direta, mais antiga, e impossível de ignorar.
Karrath aceitou. Levantou-se sobre os seis braços, dispôs-se de pé sobre as cinzas, e olhou em direção ao horizonte onde, dali a alguns anos, o Dracogedon começaria, como se o horizonte já lhe devesse algo.
E a presença, sempre à beira do ângulo de visão, continuaria ao lado dele de uma maneira nova. Uma companhia. E com essa companhia, finalmente formalizada pelo reconhecimento mútuo, veio o último dos poderes faltantes, cristalizado em uma Alma Inabalável, capaz de transformar o kaijin num foco de medo onde antes fora apenas um receptáculo dele, e também capaz de transformar a Presença Aterradora acumulada nos anos de luto em um instrumento consciente, dirigido e escolhido.
Não sabia, ainda, exatamente o que faria. Sabia, porém, o que tentaria. Tentaria mostrar aos dragões ainda não vindos, aos monarcas ainda não elevados, ao Monarca das Almas ainda não coroado, o que era o verdadeiro medo. Não o medo deles. O medo dele. O medo de um filho do Deus do Medo, forjado pelo silêncio durante o fim de um mundo, com a intenção de fazer o terror descer sobre criaturas jamais humildes o bastante para aprender o significado de temer.
Foi o que fez. E essa, se houver quem a conte um dia, é uma história diferente.